Coluna: Marcelo Dourado
Apos três longos anos viajando pelo mundo, mudando de endereço, de trabalho, de vida, volto a fazer o que sempre foi motivo de dedicação e superação em minha vida: COMPETIR. Mas não é apenas mais um campeonato, não. Nunca o é. Uma competição de luta é o que há de mais perto de nossa batalha ancestral pela sobrevivência; nos coloca em uma posição primitiva, quase reptiliana, de sobrevivência, domínio e determinação. É o mais perto que chegamos, em segurança e dentro de regras, do limite de nosso "primal screem". Mas cada luta é uma luta, e nada deve ser negligenciado. Nenhum adversário subestimado.
Lembro-me de meu primeiro campeonato de Judô. Mal dormi na noite anterior ,imaginando como seria cada momento no ambiente da competição. Aos 10 anos, já havia competido em torneios de atletismo, mas nada se comparava a esse novo momento. O frio na barriga ,a ansiedade, pernas tremiam... Recordo de entrar caminhando, já com o kimono e a faixa branca, num ginásio de colégio, lotado de crianças e pais que faziam, num ritmo ensurdecedor, berros de incentivo e brados de luta. Meu corpo parecia flutuar, sentia-me pesado e leve ao mesmo tempo.A cada chamada de um Marcelo para lutar, meu corpo era encharcado por uma descarga de adrenalina. E ao me dar conta, já estava na beira do tatame, cumprimentando meu adversário, e os segundos se transformavam em minutos... O tempo parou, lá estava eu medindo forças e buscando o ippon. Dor, cansaço, medo, ansiedade?... Tudo ficara fora do shia-jo, meu corpo agora seguia a vibração do combate. Os gritos e barulhos externos transformaram-se em tambores de guerra... Nunca mais larguei esse vicio do embate.
Aprendi de uma maneira direta e prática, o aprendizado do conceito de humildade. Foram até hoje mais de 350 lutas, contando Judô, Luta Olímpica, Kempo, Jiu-Jitsu e MMA. Na busca natural por adversários cada vez mais qualificados e competitivos, busquei em toda vida competições onde encontrasse os melhores lutadores e a partir do confronto,minha busca pela evolução pessoal. Aprendi que no esporte, se perde, se ganha. Ganhamos aplausos, vaias, medalhas, cicatrizes, lesões, glorias... Mas a única e verdadeira vitória é a que alcançamos sobre nossa própria limitação. Ganhar é bom, perder é ruim, mas tudo faz parte do ciclo da vida. Ninguém está acima da derrota ou da vitória, e somos derrotados, inevitavelmente, pelo tempo. E,antes que esse dia chegue,espero cumprir minha missão. Enquanto lutador: tornar-me o melhor possível e transmitir os ensinamentos a outras pessoas.
Para tanto, vejo a competição como um meio de evoluir e testar nossos limites, disciplina e dedicação a uma causa. A simples disposição de treinar todos os dias, mesmo naqueles em que não queremos enfrentar a dor ou a estafa, já valem a caminhada. No dia que for lutar, vou lembrar das festas que deixei de fazer, das horas que poderia ter passado em família ou simplesmente me divertindo. Sei que, independente de ganhar ou perder, vou dar o máximo de mim, que este lutador de kimono não é definitivamente aquele menino de 30 anos atrás. As derrotas me deixaram ainda mais duro, mais determinado. Minhas vitórias me deram a esperança de que posso ir além. Os amigos que colocaram a cara e que também bateram, foram essenciais e todos crescemos juntos. A caminhada já valeu e estar novamente prestes a pisar num dojo me enche de alegria.
"Morrer como homem é o premio da guerra." Racionais MC’s
Boa sorte guerreiros... Até o campo de batalha!
Marcelo Dourado
Escrito por Marcelo Dourado no dia 20 de Julho de 2011.
Contatos com Dourado no Twitter @MAKTUBDOURADO e Facebook.

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